
A coisa mais próxima do bem-querer que eu conheço é um abraço a uma desconhecida.
É fechar-me com alguém que me incita ao beijo.
É poder ser livre de pensar aquilo que eu quiser sem ter que planear consequências ou sem temer o que vai acontecer amanhã.
Porque amanhã já não existirá nem o bem-querer nem o abraço. Tudo o que fica é um licor doce que me escorre e que assim se perdura pelos dias em que me apago.
A coisa mais próxima do bem-querer que eu conheço é uma sala vazio de gente.
Onde as paredes são quentes e os cabelos sedosos.
Onde os olhares já se apagaram.
Onde há música e onde a vida é tão lenta que só nos resta saboreá-la. E depois as palavras, a voz como as paredes, a pele como os cabelos, as mãos que se deviam ter tocado.
A coisa mais próxima do bem-querer que eu conheço é ficar sem saber como responder ao teu carinho, à tua doçura. Porque tudo isso me transporta para onde eu não sei estar.
Estou a ouvir uma canção que repete, monocordicamente, a palavra sozinho.
Apetece-me rasgar a camisa por não querer abrir os botões, ter a cara pintada de preto e dizer a toda a gente que sou carvoeiro, deixar crescer a barba até ser digno de aparecer num álbum de fotografias. E pensar que tudo o que já não tenho morreu.
Tenho que ter os dedos inábeis para te tocar, ter os dentes ausentes no momento da dentada, não ter o chocolate presente no momento de saborear, ter que fazer todas as coisas que, na face do mundo, já foram feitas, ter um dia por semana para se ser sorridente e adoecer, fingir que tudo está errado, depois fingir que tudo está certo, limpar a mente, crescer um bocado, dizer olá…

temer o amanha, planear e "adivinhar" as consequencias do futuro podem ser amarras pa a vivencia espontanea...mas tb o porto seguro para quem ja se magooou...e nao tenha coragem de voltar a amar...
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